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Ser professor no século XXI PDF  | Imprimir |  E-mail

Desenho dos alunos da Turma 1901, da E.M. José de Alencar

A sociedade consumista, descartável e imediatista ocidental do início do Século XXI bate à porta da escola e traz um desafio para o professor: assegurar a manutenção dos valores de convivência pacífica entre os seres humanos, baseada no respeito, no diálogo, na compreensão, na paciência e na solidariedade. “Valores modernos que foram conquistados a duras penas, mas que se encontram ameaçados por conta da monetarização da relação humana, onde as pessoas estão mais preocupadas com o ter do que com o ser”, explica a professora Regina de Assis, presidente da MULTIRIO, produtora de mídia e pesquisadora.

De acordo com Regina, pais e mães se preocupam em ter dinheiro para comprar brinquedos, roupas e os últimos lançamentos eletrônicos para seus filhos do que ser, com eles, pessoas compassivas. “Pessoas que se respeitam mutuamente, que entendam que há direitos e deveres, portanto, limites na convivência. Por exemplo, na forma de os alunos agirem, na escola, com os professores e com os colegas. É preciso que continuemos humanos e não agentes da globalização e da violência que o dinheiro gera ou da vertigem do poder e da fama”, defende a presidente.

Professor de Filosofia na Universidade do Texas (EUA) e autor do livro A Cultura da Mídia, Douglas Kellner afirma que vivemos na cultura do consumo e da mídia que oferecem um deslumbrante conjunto de bens e serviços que induzem os indivíduos a participar de um sistema de gratificação comercial. De acordo com o autor, as duas culturas atuam de mãos dadas no sentido de gerar pensamentos e comportamentos ajustados aos valores, às instituições, às crenças e às práticas vigentes. “O rádio, a televisão, o cinema e os outros produtos da indústria cultural fornecem os modelos daquilo que significa ser homem ou mulher, bem-sucedido ou fracassado, poderoso ou impotente. Indústria que também fornece o material com que muitas pessoas constróem o seu senso de classe, de etnia e raça, de nacionalidade, de sexualidade, de nós e eles”, explica Kellner.

Nas palavras de Roger Silverstone, consumimos a mídia e consumimos pela mídia. Professor de mídia e comunicações na London School of Economics and Political Science, ele afirma que, no mundo de hoje, somos o que compramos, não mais o que fazemos ou, de fato, pensamos. “A mídia, não é exagero dizer, nos consome. O consumo é, ele mesmo, uma forma de mediação, à medida que os valores e significados são traduzidos e transformados nas linguagens do privado, do pessoal e do particular”, destaca Roger em seu livro Por que estudar a mídia?

É exatamente por causa dessa cultura de mídia e de consumo desenfreada, instantânea, efêmera e transitória que o professor Marcos Ozório, diretor de Mídia e Educação da MULTIRIO, aponta a escola como o lugar da permanência de conhecimentos e valores. “Me parece que a escola está numa encruzilhada, devendo, ao mesmo tempo, acompanhar as transformações da sociedade e continuar sendo o espaço da permanência, num mundo onde tudo é provisório”, destaca.

A esta sociedade calcada na cultura da mídia e do consumo, soma-se a violência das grandes, médias e pequenas cidades e a indiferença de pais e responsáveis frente aos deveres que eles têm para com seus filhos. Estes também são outros dois pontos que tornam, cada vez mais, desafiantes o dia-a-dia da escola e o trabalho do professor. “Estamos na Idade Mídia, conduzida pelo mercado, pelo poder e pela fama, na qual a dignidade já não é mais um valor preponderante. Na qual, pais, mães e educadores da nova geração, em grande medida, vão se tornando indiferentes à necessidade de se (re)encantar e de se (re)humanizar para garantir a permanência de valores essenciais à vida”, conta Regina de Assis.

Sem a permanência desses valores, a sociedade está mergulhada na selva, na lei do mais forte e, no mundo de hoje, na lei de quem tem mais dinheiro, poder e fama. “Na verdade, trabalhar pela constituição de valores de convivência e afeto sempre foi uma prática dos bons professores. No entanto, hoje, a tarefa, que é essencialmente humana, é mais desafiadora. Depois dos pais e dos responsáveis, os professores ainda são exemplos, referências adultas para crianças e jovens. Portanto, devem continuar sendo mediadores das múltiplas formas de relacionamento”, destaca Regina de Assis.

Para Ana Luiza Smolka, professora da Faculdade de Educação da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), o que Regina de Assis destaca está ligado ao compromisso social dos professores, que devem entender que o “aprender” do aluno não se reduz à sua capacidade inata ou predeterminada, mas, sim, à produção social e relacional. "O desenvolvimento humano se dá a partir da imersão na cultura e da apropriação das práticas sociais e históricas. O desenvolvimento não é e não deve ser visto como um a priori, mas como resultante das práticas educativas”, conta Smolka.

Com base nos estudos de Vigotski (1995), Wallon (1973), Leontiev (1978) e Luria (1979), é possível afirmar que as formas de relação social, os meios e modos de produção, e os produtos resultantes das interações afetam os indivíduos em todo os sentidos em sua atividade prática. São elas que também constitutem o funcionamento mental, os modos de sentir, pensar, agir e conhecer. Neste sentido, o conhecimento do mundo e de si mesmo passa, necessariamente, pelo outro. Em outras palavras: a aprendizagem está relacionada às forças de participação e apropriação das práticas sociais.

É preciso então encontrar o potencial de a escola manter valores e conhecimentos indispensáveis à vida humana por meio de práticas educativas conseqüentes. Como destaca Maria Inês Delorme, diretora do Núcleo de Publicações da MULTIRIO, a instituição escolar não pode oscilar entre a prepotência de querer e poder resolver tudo e a impotência e a inércia frente às transformações. “É necessário falar, pensar, refletir sobre a potencialidade da escola, sobre a força de união e de interação pautada em objetivos comuns”, avisa.

A tarefa não é nada fácil. Na realidade, na avaliação de Smolka, tem ficado cada vez mais complexa. “A produção cada vez mais rápida e intensa de conhecimento e a dinâmica cada vez mais acelerada de divulgação de informações têm exigido a invenção de formas diferenciadas de ensinar e aprender, que redimensionam e potencializam as condições e as ações dos sujeitos. As transformações históricas têm demandado cada vez mais pluralidade nas relações de ensino, em vez de uniformidade”, analisa Smolka.

Em seu livro A Cultura da Mídia, Douglas Kellner faz uma reflexão instigante. Talvez, diz ele, o mundo de hoje seja visto, pelos futuros historiadores e pesquisadores, como uma era especialmente retrógrada em que os indivíduos ainda não se tinham ajustado às novas tecnologias, em que eram esmagados pelos novos meios de comunicação e ainda não tinham aprendido a governar-se e a controlar a tecnologia e a mídia. “Talvez, as futuras gerações riam da pretensão que temos de ser esclarecidos e modernos”, provoca o autor.

Se assim será vista a atual geração, não se sabe. Para Regina de Assis, o que nos cabe é agir. Em sua análise, os professores não podem e não devem desanimar, pois os bons profissionais são condição indispensável para uma sociedade humana mais digna e feliz. “São os professores os que têm conhecimento e tempo para lidar com a capacidade humana de se transformar e transformar a vida para melhor. A escola é o último reduto civilizatório do nosso tempo. Só devem ficar nela os professores que realmente acreditam em seu potencial e têm esperança e confiança naquilo que fazem”, finaliza.


Fonte: RioMídia - Multimeios - Mídia e Educação Pública

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Fontes

 Regina de Assis

Presidente da MULTIRIO, produtora de mídia, professora universitária e pesquisadora. Coordenadora-geral do RIO MÍDIA. Membro Latino Americano do Conselho Diretor da World Summit on Media for Children Foundation. Coordenadora-geral da 4a Cúpula Mundial de Mídia para Crianças e Adolescentes. Ex-Secretária Municipal de Educação do Rio (1993/1996). Ex-membro da Câmara de Educação Básica do Conselho Nacional de Educação (1996/2000). Doutora em Currículo e Ensino para Educação Infantil pela Universidade de Columbia (EUA), com Mestrado e Curso de Estudos Avançados em Educação pela Harvard Graduate School of Education (EUA).

 Marcos Ozório

Diretor de Mídia e Educação da MULTIRIO. Mestre em Educação pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro.

 Ana Luiza Smolka

Professora Doutora em Educação da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp).

 Maria Inês Delorme

Diretora de Núcleo de Publicações da MULTIRIO. Professora da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj). Jornalista. Doutoranda em Mídia e Educação pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro.

 

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Um curso livre, preparatório para concursos (Colégio Pedro II, Colégio Militar, Fundação Osório, CAp da UERJ e da UFRJ, CEFET e CEFETEQ) e voltado para o ensino fundamental e médio. Aulas em grupos pequenos e particulares, ministradas apenas em Botafogo, zona sul do Rio de Janeiro,também são oferecidas além de estudo dirigido. O curso é coordenado pela professora Delymar Cardoso e sua equipe.

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